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O Poeta da Paz

Quem sentou outro dia numa mesa do deck do Tônico’s Boteco para uma “Conversa de Bar” foi ninguém menos que o poeta Thiago de Mello. Impoluto em seu traje inteiramente branco que diz usar pois “o branco é bom, é do bem…” e, de pronto, colocou as mão sobre os ombros de seu interlocutor vestido de preto e completou: “O preto, escuro, não é bom…por isso uso branco, sempre”.

Não bastasse o branco do traje, ele carrega pendurada ao pescoço uma pequena peça branca em formato de um ovo. “È marfim vegetal, extraído de uma planta amazônica e tem as mesmas características minerais do marfim animal e, por isso, muito procurado por estrangeiros. Os coreanos têm utilizados mito este marfim”.

Já sentado, diante dos da casa dispostos para a conversa foi enfático em dizer que estava “cansado” e que não veio a Campinas “para trabalhar”. Assim sendo não queria entrevista longa. Relaxou ao saber que seria apenas um Conversa de Bar, rápida e rasteira…

– “Pois então estou pronto. Vamos avante que quero tomar o meu trago com os amigos”.

Sobressaltou-se e respondeu com certa rispidez – mas sem ser deseducado ou mesmo deselegante – a pergunta sobre o fato de ser considerado “Poeta Engajado”.
– “Sou poeta da vida. Se não vercejo sobre as estrelas ou o brilho da lua, não é porque não o considere importante. Afinal também são parte da vida. De minha parte prefiro levar a palavra, vercejada, a fazer o ser humano refletir sobre si mesmo e sobre o outro”.

– “Mas o poeta acredita na palavra apenas como capaz de transformar…”

O interlocutor não teve tempo para completar. O poeta não deixou.

– “Vou responder com um breve relato, se me permitem. Peço que ouçam.

Certa vez em Paris, num destes encontros sobre meio ambiente dos quais participo sempre que posso, falava sobre a Amazônia como a esperança do mundo quando uma senhora, francesa, vistosa, bonita até, levantou-se e quase bradou:

– “Como pode o senhor sair de lá de seu país e vir aqui na Europa falar em esperança quando todos sabemos que a terceira Guerra Mundial é inevitável?”

– “Retomei minha palavra calmamente e me dirigi a ela dizendo que se ela acreditava mesmo inevitável a terceira Guerra Mundial ela deveria estar fazendo algo para evitar a catástrofe. De minha parte, eu disse, estou aqui fazendo isso. Se cada um fizer a sua parte certamente conseguiremos caminhar para um mundo melhor. Acabei aplaudido de pé. Fiquei gratificado, é evidente, mas a história não termina aí. Algum tempo depois, eu fazia uma sessão de autógrafos numa livraria de Paris e, na fila, vejo quem? Pois é, ela mesma. Chegou até a mesa, solicitou o autógrafo e depois me abraçou e, claramente emocionada falou ao pé do meu ouvido:

– “Eu estou fazendo a minha parte. Obrigada.”

Vídeo e Texto: Gilberto Gonçalves

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