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“Não sei se é 92 ou 22…”.

moacir-luz

Foi no sábado dia 23 de junho (2012) com o frio do inverno campineiro que encontrei Roberto Silva no almoço do Tonico’s Boteco. É dia de feijoada no cardápio e de caipirinha, lógico. Quando ainda aperitivava nos torresmos, mandioca e calabresa fritas, topo com os olhos, adentrando ao salão, dois casais. Um,  já velho conhecido, Paulo e Paula, anfitriões do Tonico’s. O outro, estranho. Feitas as apresentações de praxe eles são Roberto Silva e Syone.

Ah sim, Roberto Silva, o sambista carioca que se apresentaria na casa à noite. Aprumados à mesa, antes do papo, observo-o nos modos alimentares: um prato de pouco arroz e feijão preto da feijoada e pequeno pedaço de carne dela também e água mineral. Na sobremesa, melancia com um pouco exagerado de açúcar por cima.

Saciada a fome, sapeco-lhe, sem constrangimento o torpedo fundamento da minha dúvida:

-“É assim que se chega aos 92 anos?”

– “92 ou 22?” retruca ele – “É assim mesmo. Só bebo água, não fumo há mais de 35 anos, me alimento bem apesar do abuso no açúcar, não tomo remédios – tenho ódio de planos de saúde – e faço uma hora de ginástica por dia”.

-“Só isso!!??”

– “Tem mais: muita alegria de viver! Sete filhos, 22 netos, 12 bisnetos, 6 tataranetos – todos no caminho certo e na casa de Deus – e uma mulher companheira maravilhosa, esta que está aqui ao meu lado”.

Ele é filho de pai italiano e mãe carioca de Macaé. Diz que foi isso que lhe deu a morenice brasileira da pele e o tom azul claro dos olhos. E força com os dedos as pálpebras para que saltem as pupilas: “Olha aí ó, olhos claros…”

Mas não são os olhos claros o que provoca admiração não. São seus 92 anos mesmo! O comentário lugar comum é impossível de ser evitado: “ninguém diz mesmo!”. Ligeiro ele levanta da cadeira e samba rapidinho como moleque. E olha que não tem ninguém mais na família voltado pra música. “Tem pro futebol. Tenho sobrinho que foi até profissional: Altivo. Mas na música só eu mesmo”.

Além da boa forma física, seus 92 anos – até agora pelo menos – não interferiram em nada em sua memória. Ele lembra fatos e datas na maior naturalidade. Conta histórias dos bons tempos de rádio no rio demonstrando certo saudosismo mas deixando transparecer muito mais alegria por ter vivido o que e como viveu. Hoje tem uma bronca danada de quem lhe oferece cadeira para cantar sentado. “O cara pensa que, pelos meus 92 anos, não posso cantar de pé. Não venha com cadeira pro meu lado que fico bravo!”

Depois do almoço foi à praça, em frente ao Tonico’s Boteco, para pose diante do monumento túmulo de Carlos Gomes. Antes de rumar para o hotel e descansar um pouco para o show da noite, cobrou presença: “quero ver vocês aí à noite para curtir a alegria”.
PS.: o show da noite foi emocionante e, de pé, por pouco mais de uma hora cantou e brincou como criança mostrando que a vida é pra ser vivida, com 92 ou 22.

Foto e Texto: Gilberto Gonçalves

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