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Nã – Tudo sobre animais, de A até V

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Tente sair pelo centro de Campinas perguntando por Pedro Paulo da Silva. Entre, por exemplo no Giovanetti I, em pleno Largo do Rosário e pergunte aos funcionários se conhecem algum Pedro Paulo da Silva.

Tente, inclusive adicionar a este nome a explicação de que ele é um profundo conhecedor do mundo animal de A a V. Nem assim. Pedro Paulo da Silva é um negro “(sem cor)” campineiro nascido em 1938.

Na noite de 23 de julho, véspera de São João, ele foi companhia, na mesa da diretoria, no Tonico’s Boteco. Perguntado sobre o por que do “sem cor”, foi categórico:

– “Olha, quando o homem é correto, tem caráter e bom coração, não importa a cor da sua pele. Aí não existe esse negócio de cor. Portanto, sem essa de cor!”

A noite era especial. Outra figura “carimbada” da casa comemorava seus 77 anos de vida. Mineiro do Cavaco teve direito a parabéns e foto posada ao lado de Pedro Paulo da Silva. Na imagem gravada para a prosperidade, 144 anos de história, muita história. De volta à mesa, outra característica marcante de Pedro Paulo da Silva ficou evidente: a alegria de viver. Piadista de mão cheia, não tem cara fechada com ele por perto.

– “Esse negócio de Copa complica tudo. O pessoal invés de sair fica fazendo churrasquinho em casa e aí a noite fica meio sem graça. É culpa da Copa”.

Como o futebol, especialmente o brasileiro, está cheio de cobras, ele também adora falar de futebol, claro.

– “ Veja bem se o cara é o melhor do mundo, ele tem que jogar e fazer gol, em qualquer posição e jogando com quem for. Ou então não é o melhor do mundo. O Pelé fazia gol até de olho fechado porque era o melhor do mundo.. Tem que deixar os caras jogarem do jeito que sabem e pronto. Quando fui técnico de um time de várzea disse pro meu centro avante que no jogo do domingo ele ia jogar bem adiantado e ele me apareceu no campo na sexta-feira…pode?”

E tome mais:

– “Ontem bateram na minha porta. Eu atendi e disseram: esmola! Rapidamente respondi: pode pôr por debaixo da porta…”

Se deixar, ele solta uma atrás da outra.

Cutucado sobre o fato de ter intimidade com o Giovanetti e estar no Tonico’s Boteco, voltou a falar grosso:

-“Olha, eu adoro esta casa. Ela tem muita alegria e eu gosto muito disso. E ainda vou dizer mais, o Giovanetti é famoso por seus sanduíches, mas aqui, no Tonico’s tem um lanche que é a melhor coisa do mundo. É feito com carne de vaca muito macia e com tempero fantástico. Chama Guarani esse lanche e eu venho muito aqui por causa dele. É verdade que aqui também sinto muita saudade do Neto (ex gerente da casa falecido em 2005), mas é a vida”.

Durante a conversa Pedro Paulo da Silva deixou escapar um sonho seu: -“ Eu gostaria de realizar uma festa com o pessoal da imprensa – rádio, jornal e tv de Campinas, mas uma festa que o pessoal pudesse levar a família. Assim a gente podia saber: – Olha essa é minha mãe, essa é minha mulher, filha, filho. A gente se conhece mas não conhece a família… Quem sabe ainda consigo realizar este sonho, esta festa?”

E na hora de Cinderela virar abóbora (quase meia noite) ele se despede e parte rumo ao lar, em plena rua Conceição, duas quadras apenas do Tonico’s. Mas não esquece de deixar uma de suas lições de vida.

– “Precisamos nos cuidar também. Minha mãe sempre dizia: – Meu filho acredite em deus, mas fuja do lobo! Ou seja, nada de dar bobeira. To indo nessa”.

“Vai com deus, Nã”, retribuíram da mesa. Ah, sim Pedro Paulo da Silva, o negro sem cor e de bom coração tem o apelido de Nã, pelo qual é conhecido em Campinas inteira. Nã, o homem que conhece tudo de animais, de avestruz a vaca!

Foto e Texto: Gilberto Gonçalves

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