conversa-de-boteco-titulo

O homem que não resiste aos botequins mais vagabundos

moacir-luz

Moacyr Luz é violonista, cantor, compositor e apreciador dos botequins mais vagabundos.
Carioca de corpo e alma, seu nome é identificado imediatamente à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro quando o assunto é samba e boteco.

Começou sua carreira de músico nos anos 70, mas deslanchou mesmo a partir de meados dos anos 80, quando tornou-se amigo e parceiro do letrista Aldir Blanc. De lá para cá foram incontáveis sambas feitos a quatro mãos, muitos deles já incorporados ao inconsciente coletivo do povo carioca.

Quer um exemplo? Saudades da Guanabara, que na voz de Beth Carvalho se tornou o hino não-oficial da Cidade Maravilhosa.

Outro exemplo: Anjo da Velha Guarda, uma delicada homenagem à Zeca Pagodinho. Ou então, Medalha de São Jorge, oração gravada lindamente por Maria Bethânia.

Moacyr é dono de canções imortais, lapidadas com a precisão do ourives. À parte isso, é reconhecido como um grande conhecedor da cultura de boteco. Quando não está em casa ou fazendo shows, pode ser encontrado na mesa dos bares que ama e freqüenta.

Atualmente prepara o lançamento do livro Botequim de Bêbado não tem Dono, que sai ainda este ano pela editora Desiderata. Nele, Moa conta algumas das histórias mais improváveis vividas em suas andanças pelos bares. Quando vem para Campinas, costuma beber no Tonico’s Boteco, como revela nesta entrevista.

Bruno Ribeiro – Moa, quais são as recordações mais antigas que você guarda de sua história com os botequins?

Moacyr Luz – O cheiro forte do barril de jurubeba que melava os balcões das biroscas de subúrbio…. Outra coisa marcante era o jiló ainda a preço de legume e não de caviar como está sendo cobrado atualmente…

BR – O que é que não pode faltar num botequim de verdade?

ML – O improviso. No momento que o tira-gosto virou código de computador e acabou a meia-porção; quando o milanesa do almoço vira abrideira, o botequim deixa de ser de verdade…

BR – Quais são os botequins que você freqüenta no Rio de Janeiro?

ML – Como ando muito no Rio, emocionado com as pessoas, tenho um bar em cada bairro. No Centro são dois, um em cada margem da Presidente Vargas. À esquerda da Candelária, o Paladino e à direita, o Casual. Em Copacabana, o bar Barata Ribeiro na própria rua com a Barão de Ipanema. E em Santa Tereza, onde estou pousado, o Bar do Gomes.

BR – Como você avalia os botequins campineiros e o Tonico’s Boteco em especial?

ML – Sinceramente, eu gosto muito… O Tonico’s mistura chopp com cerveja sem deixar a peteca cair… Na mesma rua tem um mercadinho [Nota da redação: Mercado Campineiro]. Lá existe um bar [Nossa Bar] que tem o maior requinte nos mínimos acepipes…

BR – Você acha que deveria ser permitido pedir chopp sem colarinho?

ML – Essa pergunta merece uma resposta rodrigueana. Você acha que deveria ser permitido pedir picanha sem gordura? Mortadela sem pimenta-do-reino? Coxinha sem pele? Futebol sem bola? Lua-de-mel sem mulher? Em último caso, seria criado um lugar reservado, feito o de lugar de fumantes. Ali o sujeito, sem a presença de testemunhas, beberia seu chopp sem colarinho, velando um copo da bebida desfalecida…

BR – Quais são os melhores petiscos para apreciar numa mesa de boteco?

ML – Eu gosto de petisco que se compartilhe, uma carne assada, um pernil… Pra pedir pastel, bolinho de queijo, essas coisas, é melhor ir pra festinha de play-ground…

BR – O que faz com que você não volte num boteco?

ML – O copo salpicando bolhas de gordura pelo fundo e o garçom afirmando que é a pressão do chopp…

BR – Fale um pouco sobre o livro Botequim de bêbado tem dono, que você está escrevendo.

ML – Dessa vez resolvi dar nome aos bois, contando histórias dos bares que freqüento. Casos que nesse mundo de buteco deixam a gente sempre bêbado de saudade…

BR – Qual a história mais engraçada que você presenciou no botequim?

ML – Há muito tempo, um sujeito enorme, quase dois metros de largura, segurança do Banco do Brasil, reclamou com a dona Maria que a pimenta dela era coisa de bicha, de menina… Eu levantei, fui em casa e peguei uma dinamite em forma de malagueta, que eu tinha separado pra essas ocasiões… E nada adiantou eu pedir parcimônia no uso. O homem botou uma colher de sopa na sardinha… Comeu, tossiu, tossiu e foi vomitar na árvore em frente ao bar, pedindo desculpas pelo vexame…

BR – Qual sua dica para curar ressaca?

ML – Na realidade minha ressaca começa no dia. Basta um chato sentar na minha mesa e puxar um assunto totalmente desnecessário, como a independência de Kosovo… E ainda fazendo cara de entendido e preocupado… Pronto, tô quebrado…

Foto: Gilberto Gonçalves
Texto: Bruno Ribeiro

VOLTAR