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Vida de “Minerinho” tem 2cm de história

É isso mesmo. A história de “Mineirinho do Cavaco” tem apenas 2cm. É muito pouco, mas é a pura verdade e contada por ele mesmo numa das mesas do Tonico’s Boteco onde, às sextas-feiras, ele brilha com o seu cavaco. (Se quiser ver e ouvir, apareça).

E os dois centímetros Mineirinho, que história é essa?

“Olha, eu fico até meio chateado de contar. Mas acontece que é a pura verdade. Eu sempre fui louco para ser militar, sabe. Queria chegar a ter um monte de estrelas na farda. Igual a esses generais aí… Mas quando fui me apresentar para o serviço militar lá em Itajubá/MG, na hora do exame médico, um sargento pediu pra eu subir na balança para pesar.
Depois pediu pra eu encostar numa régua na parede para me medir. Pronto. Foi aí que deu nó.

Ele disse que eu não podia servir o Exército porque eu tinha apenas 1,53m e que a altura mínima era 1,55m. Não adiantou insistir, implorar, chorar e tudo mais para o sargento. Ele disse que se mudasse minha altura podia ser expulso do Exército. Taí, minha vida dali pra frente foi mudando. Por causa de 2 centímetros não pude ser o que eu queria”.

Mas “Mineirinho”, que leva o nome de José Mariano, se não cresceu para buscar as estrelas do generalato, cresceu como músico. Hoje, aos 77 anos recém completados, tem orgulho de já ter sido considerado – conforme ele mesmo explica – por um jornal da Associação Atlética Banco do Brasil, como “o melhor cavaquinista do país”.

Ele pode não ser o melhor mas consegue, com seus 1,53m de altura, agradar muita gente nas noites de sextas-feiras no Tonico’s Boteco. Quando é chamado pelo grupo Velha Arte do Samba ou pelo QCV-Quarteto de Cordas Vocais – de quem já recebeu o carinho apelido de Jimi Hendrix do Cavaco – ele atravessa o salão, acenando para o público como uma verdadeira estrela do Show Biss e sob intensos aplausos e apupos.

Sempre de camisa fechada até o botão do colarinho sob modestos paletós ou uma mais moderna jaqueta de couro não só dedilha o cavaco na tradicional posição, mas chega à ousadia de tocar com o instrumento sobre a nuca. “Toco de tudo no cavaco. Até música clássica e religiosa, inclusive em casamento”. Depois do show particular, faz o caminho inverso pelo salão. Novamente acenando para o público que aplaude entusiasticamente.

Cumprida a missão da noite, “Mineirinho” coloca seu cavaco no estojo e parte em direção de casa. Há quem diga que ele caminha, nestas noites de sextas-feiras, mais de 20 quilômetros entre o centro da cidade, onde fica o Tonico’s Boteco e o bairro São Vicente onde mora. Ele nega que faça isto sempre. “Já até fiz algumas vezes, mas normalmente vou de ônibus”. Até agora não apareceu ninguém que tenha acompanhado o “Rei do Cavaco” no seu retorno para casa para comprovar como é feito o trajeto. Portanto, sabe-se que ele vai mas não como. Pouco importa.

Importa mesmo e que na sexta-feira seguinte ele está no Tonico’s novamente para o seu show de estrela.

Vídeo e Texto: Gilberto Gonçalves

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