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“Por favor não me diga que tem Português no samba”

Foi assim que Ratinho, um dos maiores compositores de samba do Brasil, abriu nossa “Conversa de Bar” no Tonico’s Boteco no sábado, dia 15 de março de 2008.

Ratinho, na verdade é Alcino Correia Ferreira, nascido e Armamar, Distrito de Viseu, em Portugal, acima do Rio D`Ouro , Portugal e desembarcado no Brasil com 4 anos de idade para morar onde? No Rio de Janeiro, lógico. Na Rua Djalma Dutra, nº 295, em Pilares.
Até aí nada de mais. Ele era apenas mais um Português por aqui.

Acontece que o botequim do seu pai além de ponto do jogo do bicho, era também local de encontro de sambistas. Neste ambiente o que poderia ser quando crescesse? Ou bicheiro, ou sambista.
Deu no que deu. De tanto ser levado pelos cambistas do jogo para as rodas de samba do Rio, começou a tomar gosto pela coisa e, aos 11 anos produziu sua primeira composição. De lá para cá não parou mais. Elas já ultrapassam as mil, entre gravadas e inéditas. Daí o respeitoso tratamento de “poeta” que recebe de quem conhece seu trabalho.

– Eu digo pra não vir com essa história de português no samba porque, se tem uma coisa que sempre teve no samba brasileiro, é português. Ou colocando o dinheiro ou colocando os braços para ajudar na força desde o início. Daí não existe anormalidade nenhuma em português compositor de sambas.

Mal chegado em sua primeira vinda a Campinas, serviu-se no farto bufet da casa. Abriu vasto sorriso diante das panelaças de feijoada mas apenas regou, com uma conchada de feijão, o branco punhado de arroz do prato. Sentou-se à mesa junto com o fiel escudeiro, o cavaquinista Abel – também figura de fisionomia estranha para as rodas de samba graças aos longos cabelos muito loiros e cacheados – e nós do Tonico’s.

– Preciso ligar para o meu filho. Ele mora aqui em Campinas. É sargento do exército e serve no 28º. BIB. Bom menino taí!

O celular do Paulo Henrique – comandante do Tonico’s Boteco – fez a ponte entre pai e filho.

– Oi filho… Acabei de chegar aqui em Campinas. Queria falar com você… Tô com saudades.

Sua voz embargou, os olhos marejaram de lágrimas e Ratinho se emocionou sem vergonha nenhuma dos estranhos a sua frente. Chorou. A comida do prato foi remexida com o garfo mais algumas vezes e ficou quase toda lá. A emoção parecia mesmo ter lhe tirado a fome.

– Sou português e do samba. E só para ter uma idéia, vou voltar a Portugal pela primeira vez depois que eu vim para cá, provavelmente em maio ou junho de 2009. Vou ser condecorado pela Câmara Municipal da cidade onde nasci. Veja só, 56 anos depois eles me descobriram e querem me homenagear e lá vou eu.

Ele já ia saindo da mesa para a passagem do som quando demos uma cutucada: “Peraí, você tem mais de mil composições… diz uma aí que a gente conhece?

– “Vai vadiar” que é minha e do Monarco.

É isso, o Ratinho português veio para veio para o Brasil e aprendeu logo um negócio bom de se fazer por aqui. E salve sua passagem pelo Tonico’s Boteco.

Foto e Texto: Gilberto Gonçalves

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